Abra o coração para a morte

ENFRENTAR A PRÓPRIA MORTE, FAZER DA MORTE UM ALIADO

"... já não quero mais a morte
tenho muito o que viver..."
                        Milton Nascimento



"Abra o coração para a morte":
Os Celtas tinham uma filosofia fundamental, que era a do Eterno Retorno, que vê a vida brotar da morte, como do inverno brota a primavera, dando ênfase especialmente aos conhecimentos sobre as Forças da Natureza, sobre as energias telúricas, sobre os princípios que regem o desenvolvimento da produtividade da terra. No que diz respeito à morte, esta fazia parte da psique dos Celtas, eles celebravam a morte da mesma forma que celebravam a vida, acreditavam na transmigração da alma e que a morte era uma conseqüência natural da vida. A impermanência de absolutamente tudo, percebido por estes minuciosos observadores da Natureza, fez com que para eles a Vida fosse um fluxo contínuo de idas e vindas, a Vida não termina. Não pode. A Vida simplesmente existe e sempre fluirá por nós, independente da nossa forma. A Morte não existe, não existe fim, não tem como sair da Vida seja em matéria física ou em espírito. A vida terrena é este fluxo contínuo, manifestado na sua forma física, a matéria. Uma vida consciente nos leva a uma morte consciente. Quando vivemos cada dia passo a passo a morte simplesmente é o próximo passo.

O poema a seguir ilustra bem a proximidade que os Celtas tinham com a Morte:

"Você pode ficar comigo na fria manhã da morte?
Quando o fogo em mim se apagar e nada aquecer o meu sangue
Você pode me vigiar com um olhar materno?
Quando a vela apagar e os amigos se forem,
Pode apenas ficar e não desejar mais uma respiração em mim?
E quando meus olhos estiverem cerrados,
Felizes por um longo e tranqüilo descanso
Você ainda estará a meu lado?
Quando fecho esta porta atrás
E me abro ao coração imenso da morte
O doce amor que me chamou para nascer
É o mesmo que agora me chama em segurança de volta a terra".
(Tradução de um poema Gaélico).

Os Celtas sempre estavam preparados para o visitante inevitável. A Morte era vista como uma grande jornada, uma grande aventura na imensidão da nossa própria natureza e não como um ladrão no meio da noite. Viam a morte não como um traidor de sonhos, mas sim como algo que, de acordo com a estória pessoal de cada um, simples ou não tão simples, vinha para cumprir o "script" de cada vida terrena. Cada "história pessoal" (mistério) é individual e única. Nós morremos como vivemos e somos os criadores dos nossos próprios mundos. Por isso é agora que se deve pensar sobre a Morte e não num momento futuro quando esta aparece de repente em nossas vidas. A Morte não é algo que deve ser escondido, pois neste caso traz sofrimento e culpa; mas algo que deve ser abraçado com todo o coração. Para vivermos uma vida alegre e repleta, precisamos primeiro entender e dar boas vindas à Morte. A Morte não ocorre apenas uma vez e pronto, experimentamos muitas pequenas mortes todos os dias, quando morremos para cada momento de nossa vida. É uma transição de um momento para outro, de um estado de ser para algo muito mais espantoso e maravilhoso. Morrer (fisicamente) é o passo mais natural jamais dado em toda nossa vida.

Acompanhar o processo final da vida terrena de qualquer indivíduo requer muito amor e respeito. Cuidar desta pessoa e de seus entes queridos é um ato de doação que requer sabedoria e conhecimento para poder mostrar como uma transição pacífica para a pessoa que está partindo é possível, e como este processo pode ser conscientemente apoiado por parentes ou amigos. Isso é uma tarefa para as facilitadoras do Nascimento ou da Morte, que para os Celtas geralmente eram as mulheres, desde que estas facilitavam a vinda para este Mundo bem como a transição deste Mundo para o outro. Dois momentos incríveis que merecem todo amor e carinho.
Resta-nos praticar, ou não, da melhor maneira possível um pouco desta filosofia de Vida dos ancestrais celtas, para tornar tudo um pouco mais simples e desfrutarmos da melhor maneira possível esta passagem terrena. A gratidão pela Vida é uma forma extraordinária de estar presente nela.

trechos resumidos de
Phyllida Anam-Aire - "A Celtic Book of Dying" (res. Dorthe)
 Carlos Castaneda - O Lado Ativo do Infinito